NEM LIMÃO TÁ TENDO

Aqui estou eu para mais um textão. Sabe aqueles momentos que você para, olha para tudo e tem vontade de ir embora? Pois é.

Essa semana parei tudo (que já estava andando bem devagar) e fiquei jogada. Tive uma inflamação de garganta porque engasguei e ferrei com tudo de tanto tossir (SIM!). Então o que eu fiz? Aproveitei para usar como desculpa, é claro. Comi que nem uma doida, não fui na academia e fiquei tendo ideias que depois me pareceram todas muito ruins.

O doutorado tem sido péssimo. Eu sabia que ia ser difícil, mas tem sido quase impossível. Não consegui bolsa para estudar porque os cortes de verbas estão absurdos e estou sem emprego desde o ano passado.

Nunca comentei isso ‘publicamente’, mas fui demitida ano passado do colégio em que trabalhava por ‘falta de verbas para manter alguns funcionários’. É claro que no primeiro corte a biblioteca fecha. É claro.

Ser demitida foi um processo muito difícil. Sabe aquela coisa de ‘quero arrumar algo melhor para sair daqui’, mas de repente saíram com você e não restou mais nada. Foi do dia para a noite e um processo muito sofrido. Eu não esperava por isso e fiquei em choque.

Depois achei que viria uma bolsa, não veio. Não veio nada e aí começa aquela coisa de ‘e agora?’. E é nessa que eu estou até hoje. Claro que eu me preparei, sempre tive reservas, pé no chão, guardei tudo que recebi pela demissão, mas de qualquer forma, a gente fica completamente no escuro. E aí vem o medo, a frustração, a decepção e por aí vai.

Fazer pós não é fácil. É uma luta diária para acertar a rotina, estudar por conta, dar conta de tudo e ainda ‘brigar’ com a universidade. Na Unesp não tenho apoio nenhum. A secretaria é inexistente e ignora 99% dos meus emails. Ligações? Não atendem. Se preciso de algo, ferrou. É uma luta para conseguir um comprovante de matrícula. Aí vem nervosismo, stress, perda de tempo, enfim…

Fazer pesquisa de humanas então, piorou. Não existe laboratório, é um trabalho solitário, sem muitas pessoas para trocar opiniões. É você e você, todos os dias, com um computador e uma lista bibliográfica.

O que eu mais ouço é: ‘ah, mas você não tem nada para fazer, pode acordar a hora que quiser’. De fato, posso sim. Mas meu trabalho está ali e eu tenho um prazo para entregar. Se eu não trabalhar essa semana, na semana que vem tenho o dobro. Para defender meu doutorado preciso da tese, de publicações em boas revistas, apresentações em eventos (com que dinheiro?) e por aí vai… Muita gente acha que é bom não ter chefe, horário, compromisso marcado, mas será que é bom mesmo? Todas as responsabilidades e as consequências de não fazer jogadas apenas nas suas mãos?

Mas eu posso acordar a hora que quiser.

Claro que eu podia ter outros milhões de problemas, sim. Mas não é choramingo de cocotinha, é a frustração de tentar fazer algo e não conseguir. Não conseguir porque não tem recursos, porque ninguém responde o email, porque o artigo parou, porque o trabalho não foi aceito e ninguém justificou, e por ai vai.

Se você pretende fazer mestrado/doutorado meu conselho é: ame muito e tenha tendências trouxas. O amor vai virar ódio, tristeza, frustração e aí só sendo trouxa para continuar.

Eu ainda amo minha pesquisa, é aquela única coisa que resta e por ela eu continuo (e porque eu já entrei). Olho para o que planejei, para meu tema e ainda tenho paixão, curiosidade e é isso que me motiva. Vamos ver até quando.

Mas como a vida tá toda ferrada e a gente precisa de cartas na manga, estou pensando em abrir uma ~lojinha. Será?

#oultimojuro

:)

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Conheça meus contos:

O véuA Biblioteca do Mediterrâneo

 

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4 comentários sobre “NEM LIMÃO TÁ TENDO

  1. Oi, Gabriela. Tudo bem?
    Li seu texto e, não só me emocionei, como me identifiquei muito. Estou no último semestre de graduação em história na USP de São Paulo e, por conta da greve, não consegui me formar. Pretendo prestar o mestrado da Unicamp agora no segundo semestre, cujas inscrições se iniciam em agosto. Mas, se não consigo me formar, logo, não consigo meu diploma – e, sem o diploma, como vou me inscrever no mestrado? Acho que o país inteiro está passando por uma situação difícil e, com o corte de verbas, aquilo que é considerado “inútil” é o que sofre as consequências primeiro. Acho muito triste que nós de humanas somos os primeiros a serem prejudicados por este tipo de situação quando temos tanta paixão pelo o que fazemos (sem contar a importância que a pesquisa tem apesar de pouco reconhecida). Entendo perfeitamente a vontade de continuar somente pela paixão e eu acho que mesmo apesar de todo o estresse, sofrimento e desanimo, no fundo ainda vale a pena. Enfim, a vida acadêmica realmente é uma vida extremamente solitária e quando encontramos alguém que partilha um amor tão grande pela pesquisa como a gente, é a chance de nos ajudarmos. Então só queria te dar uma palavra de consolo pra você se manter firme prq o que nós fazemos é um trabalho lindo e que deveria ser mais valorizado, talvez até um dia seja. Quem sabe. Enquanto isso, acho que a sensação de plenitude que é ter um trabalho realizado continua ainda sendo nosso eixo norteador. Boa sorte, Gabi 🙂

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    • Marcela, tudo bem? É menina, tá complicado demais, né? Essa desvalorização desanima! Mas vai dar tudo certo, vamos continuar pensando positivo! Dá uma olhadinha, porque às vezes no mestrado eles aceitam uma declaração de que vc se forma até as aulas começarem ou vc pode entregar a documentação depois! Algumas universidades tem esses esquemas. Ai ajuda, né?
      Obrigada de coração pelas palavras e apoio! Toda a sorte e estamos aí! ❤

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  2. Ciao Gabriela! Força menina! Você é mais forte do que pensa! O que você escreve nāo é autoajuda, mas, olha, tenho 50 anos, comecei meu bacharelado em Biblioteconomia em 1997 e terminei em 1994, num canto do Brasil onde até o ano 2000 nāo sabiam o que fazer com bibliotecas e bibliotecários. Eu sabia o que queria fazer: estar perto da fonte do conhecimento, porque até hoje me fascina o conhecimento, a Ciência, Como se faz, como tratá-la, do que ela se alimenta, como ela dorme, do que ela vive. Moro num cidadezinha “sperduta”, como se diz aqui, longe do Brasil. Aqui, com o meu bacharelado nāo consigo trabalho nem de faxineira, porque tem gente mais forte que eu que atravessou a nado o Mediterrâneo e conseguem terminar o serviço que se faz em 3 horas em 1 hora e 15 minutos, e aqui se paga por hora e aceitam 1/5 do salário agradecendo de joelhos porque se recusam o que pagam tem uma fila de gente que aceitam ganhar ainda menina. Nem perco tempo ouvindo coisas do tipo que sou incompetente, derrotada, coisas do gênero. Sou bacharel em Biblioteconomia, nāo bibliotecária, porque por nāo poder pagar o Crb, minha carteira foi recolhida, pois eu fui aprovada num concurso público no Brasil onde o pré requisito era ter também em regra o Crb, mas os aprovados convocados nāo foram empossados como bibliotecários, mas com outra funçao de nível superior cujo salário nem era o mínimo de bibliotecário. Assim, os únicos quase 3 anos que pude trabalhar depois da formatura nem com o cargo de bibliotecária era. Sei que esta é a situaçāo em quase todo serviço público no Brasil. Mas nāo pude pagar meu Crb. Sei que tem muito gente valorosa muito mais criativa que conseguem reverter a situaçāo e vencer estas e tantas outras e ainda piores dificuldades. Gabriela, gosto do que você escreve, e penso que, nāo somente para mim, mas para tanta gente lúcida e incomodada com a paranóia de que se deve guardar, trancar ou vender muito caro o conhecimento, você representa o futuro da Biblioteconomia no Brasil, do conhecimento para todos. Você tem a Força! Aproveite! Um grande abraço.

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    • Paula, nossa! Nossa área é complicada demais… E todo esse lance de CRB é uma coisa que me desanima mais ainda. Acho um absurdo essa obrigação e os valores que são cobrados. Ninguém pode impedir alguém de trabalhar porque não tem uma carteira paga… Mas infelizmente essa ideia se consolidou e nós acabamos ‘vítimas’ desses sindicatos e conselhos.
      Muito obrigada pelo apoio, por dividir sua história e pela força! Toda sorte para nós e fé que vai melhorar.
      Um abração! ❤

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