A SITUAÇÃO BIBLIOTECÁRIA

Oi Br, vocês vão bem? Vim fazer textão.

Nesse começo de ano tenho recebido tsunamis de perguntas sobre o mercado de trabalho, salário, oportunidades de emprego. Creio que seja por causa dos vestibulares e afins, ou não, vai saber.

Então para facilitar minha vida, em vez de responder mil vezes a mesma coisa, resolvi vir aqui fazer um textão e ai saio disparando o link e poupo meu tempo também.

Então, como está o mercado de trabalho? O salário é bom? Tem muitas vagas? Quanto você ganha? Vai dar para ficar rica?

NOPE. E não façam mimimi, vou mandar o sincerão mesmo.

Gente, antes de qualquer coisa: acordem, biblioteconomia está ligado a educação e cultura. Como andam esses dois aspectos no Brasil? Apenas reflitam.

Eu já falei mil vezes e todo mundo sabe ou não que eu faço doutorado e me dedico à pesquisa científica. OU SEJA, não estou no mercado de trabalho, então só posso imaginar como está e dizer o que acho. Então vou dividir o textão entre pós e mercado. Sigam por onde preferirem.

COMO ESTÁ NA PÓS?

Ruim. Não há verba, não há bolsa para todos e a pressão vai bem obrigada e aumentando. Aproveito para deixar alguns pontos claros: ninguém ganha bolsa para ‘não fazer nada’. Bolsa é salário e para recebe-la nós precisamos trabalhar, com carga horária semanal definida, assinar contrato de trabalho e ter dedicação exclusiva à universidade a que somos vinculados. Por tanto É TRABALHO, É TRABALHO COMO O SEU, DA SUA MÃE, DO SEU PAI, DE TODO MUNDO. Ela não vem fácil, nós não ‘vivemos a vida inteira de bolsa’, nós vivemos de trabalho e salário. Se chama bolsa porque a universidade pública não contrata pesquisador estudante e nem contrata sem concurso público, então temos bolsas para trabalhar para a universidade.

‘Ah mas você vive disso e não devolve nada para o país’. Devolvo sim. Eu publico artigos, apresento trabalhos em eventos científicos, me mantenho atualizada e produzindo para a universidade que eu estou vinculada. Tudo isso é de livre acesso e aberto PARA QUEM QUISER, inclusive você que está lendo isso agora. É só procurar. OU SEJA eu produzo conhecimento para meu país, para melhorar nossa situação e nossa educação.

Digo isso tudo porque tenho ouvido muito esse tipo de conversinha tosca de que aluno de pós não faz nada e só suga do Estado. Então apenas esclarecendo.

AH e a bolsa não cobre todos os gastos de eventos e afins, nós não temos férias garantidas, não temos 13º e não temos nenhum registro de trabalho.

E ai que tenho recebido também várias perguntas sobre ‘o que compensa mais e dá mais grana? Mercado de trabalho ou pós?’

MIGUE, se você pensa assim, não serve para pós. Sinto muito. Pesquisa científica é coisa séria. Não é carreirismo, não é status, não é ‘vida fácil concursada’. Pesquisa científica é estudo, trabalho, e dedicação para o futuro da educação do país. Se você só pensa em fazer pós porque paga bem, porque bolsa é de boas, você não vai aguentar cinco minutos de porrada.

Como faço projeto? Que assuntos eu posso discutir? Me ajuda a escrever? Não. Projeto é pessoal e tem que ser feito por você e com suas ideias. O google pode te ajudar com quase tudo, fora isso, quer fazer pós e tá com preguicinha de procurar informações e escrever? Então vá fazer outra coisa.

SOBRE O MERCADO:

Eu atuei como bibliotecária escolar por quatro anos. Ganhava bem? Não. Nunca ganhei bem. Ganhava o correspondente ao piso da época, dividido pelas horas que eu trabalhava (não eram 40 semanais). Era um salário ok.

Atualmente o piso é de R$2800,00 por 40 horas semanais. É só jogar no google. Fico pasma de ver quanto bibliotecário e estudante de biblioteconomia preguiçoso tem por aí. A pessoa prefere escrever uma mensagem enorme para saber quanto é a média salarial do que jogar no google. Pfv, né.

Eu fui demitida do colégio onde eu trabalhava porque a coisa apertou por lá e acharam mais do que justo demitir a bibliotecária para sobrar uma graninha a mais na escola. Nenhum aluno bateu o pé, nenhum pai reclamou. Assim morreu silenciosamente mais uma biblioteca (não entrou ninguém no meu lugar).

E é assim que é.

Antes de querer saber exatamente como anda o mercado levem em consideração qual região do país você mora, se é capital ou se é interior, enfim, tudo isso influencia e muda muito o cenário.

Aqui em Ribeirão Preto, interior de São Paulo não é bom. Não tem vagas sobrando e não tem vagas abrindo. Um biblio aqui vai trabalhar em algum colégio particular ou em uma das faculdades. Há opções para organização documental empresarial, mas pagam pior que os colégios. Há opções como Sesc, Senac, etc., mas não abre vaga nunca. Todos os biblios daqui estão no aguardo por locais como esses. Há também as universidades públicas de Ribeirão e região, que raramente abrem concurso. Já prestei 3, todos bem difíceis e com uma variação absurda de conteúdos na mesma prova. Há também instituições privadas, fundações, organizações que vez ou outra contratam um biblio para auxiliar em alguma biblioteca especializada, nunca vi um salário que chegasse nem perto do piso.

*Atualização: minha bff aqui de Ribs me disse que nunca trabalhou por aqui ganhando menos que o piso. AÍ SIM! 

As opções são essas. Não é sensacional, não é fácil e ninguém vai ficar rico. A gente vai levando assim, trabalhando em um lugar e já de olho para ver se encontra algo melhor. E sempre naquele medinho de ser mandado embora, porque né, sempre tem algo mais importante que o biblio.

MAS POR QUE VOCÊ TÁ NESSA ENTÃO?

Bom, eu estou porque gosto. A gente tem mil exemplos por aí de profissões que sofrem pra caramba, mas e aí? Vai deixar de ter professor no mundo?

É claro que essas profissões, principalmente as que são voltadas para cultura e educação, são sofridas e convivem com o descaso e desinteresse de todos, sim de todos. Mas cabe a quem gosta lutar por elas, e é nesse barco que eu estou. Eu amo minha profissão, eu vejo um bom futuro nela, pelo menos para mim, que estou me esforçando para mudar e fazer diferente.

É por isso que eu continuo. Eu quero terminar meu doutorado, quero ter a oportunidade de atuar em uma universidade pública (ou privada, pode chamar que eu vou!), levar novas ideias, ensinar novas cabeças, construir novos pensamentos. Quero continuar com meu canal, desmistificar minha profissão, levar informação de acesso rápido e simples paras as pessoas e ajudar o mundo a entender que as mídias atuais são muito fortes e importantes aliadas da educação. É isso basicamente.

MAS VOCÊ TÁ GANHANDO UMA GRANA NÉ?

NOPE. Até hoje meu canal me rendeu R$50,00. Isso mesmo. Eu fiquei um ano sem ganhar 01 real, vivendo da grana que eu guardei da minha demissão (porque sou menina ajuizada e não torrei tudo) e com a ajuda dos meus pais, que tenho muita sorte de terem a condição de me ajudar.

Não sou rica, não venho de família rica. Estou me esforçando muito para conseguir chegar onde pretendo. Consegui agora com muito trabalho uma bolsa na Fundação Biblioteca Nacional, porque na Unesp onde faço doutorado não ia ter 1 centavo para mim. E é assim que sigo. Faço meus vídeos por conta própria, compro os livros que leio e resenho (ganhei uns 3 até hoje), edito meus vídeos com programa piratex, MAS ESTAMOS AÍ, sem draminha e sem choramingo. Eu quis assim, eu quis fazer e faço com muito gosto.

Claro que já tive alguns convites e oportunidades, que são fruto desse trabalho. Vou curtindo essas coisas bacanas que aparecem e esperando que apareçam mais. ME CONVIDEM, PAGUEM A JANTA QUE VOU!

A dica que eu deixo para todos que querem entrar nesse bonde é: tenha amor pela profissão, abracem a causa e guardem toda a grana que rolar ser guardada. Dá para ser bem feliz assim!

*Aproveito para deixar a dica para quem me pede ‘favorzinho’ de graça também! Você trabalha sem ganhar? Então não peça isso dos outros 😉

É ISSO BR! Fim do textão. Vlw flws.

#oultimojuro

:)

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Conheça meus contos:

O véuA Biblioteca do Mediterrâneo

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5 comentários sobre “A SITUAÇÃO BIBLIOTECÁRIA

  1. Parabéns pelas palavras, pela empreitada e entendo cada palavra dita neste post, sou estudante de biblio, e realmente não é fácil, em um País que não se tem investimentos na educação, cheio de pessoas semianalfabetas, sem incentivo à leitura e nem a qualquer tipo de conhecimento, e quê estão inertes pela ignorância e pela falta de vontade pela busca das mesma e até dos próprios direitos. E torço pelo seu sucesso e estou lendo esse texto, através da minha professora que compartilhou e fico feliz em saber que tem mais pessoas, que se importam com o futuro do nosso país e pela cultura. 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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  2. Maravilhosamente claro, simples e objetivo! Tô concluindo graduação em Biblioteconomia e já percebendo muitas destas coisas, apesar de ainda estar no início da estrada, que é mais que longa. Sigamos! Obrigado por este texto!

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  3. Oi, é ótimo conversar (ou so ler, no caso) com alguém que está formada e já inserida no “mundo pós graduação”. Querendo ou não, é uma forma de transformar em real o que antes era do uma idealização.
    Mas, preciso perguntar uma coisa que vem me instigando desde que eu ouvi falar de biblioteconomia, arquivologia, museologia. (etc) como é o mercado fora do Brasil? Não há oportunidades de trabalhar em alguma instituição no exterior? Ou é mais complicado por causa do estrangeirismo muitas vezes mau visto e bem burocrático?

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  4. Parabéns! Continue com o seu trabalho. As dificuldades estão aí para todos nós. E saiba que você me ajudou muito! Devemos levar esperança e fazer a diferença dando sempre o nosso melhor, porque a vida não precisa ser fácil, nós é que precisamos lutar por aquilo que amamos. Bjs 💗😘

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  5. Nossa o textão foi ótimo, eu ri muito 🙂 e chorei tb, porque é exatamente assim. 😦 “Há opções como Sesc, Senac, etc., mas não abre vaga nunca.” Que não vejam o que escrevi aqui… Ter experiência em biblioteconomia é difícil mesmo na capital. Escolas sempre colocam todos menos um bibliotecário na biblioteca. E quando tem o profissional bibliotecário é porque já foi processado, ou tem medo de ser processado. Só estou trabalhando atualmente no Senac do Rio após eles serem processados pelo CRB7. O Senac Rio possui 37 unidades e com total de 6 bibliotecários atuando no instituição. E mesmo assim, não recebo o piso salarial e ainda sou responsável por uma região. Moro no Rio e trabalho em outra cidade. Fora as universidades particulares que não possui acervo, não pagam o piso também. Trabalhei na Universidade Estácio de Sá e também não pagava o piso salarial, montam acervos volantes para burlar a avaliação do Mec. Enfim, são inúmeras situações que desanimam mas, como você disse bem, estamos nela porque gostamos!

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